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"Um coração desse tamanho e ninguém te ensinou a nadar?", ele perguntou, os olhos injetados estacionados sob os meus. Esperava uma resposta que eu não sabia dar, nesse peito fundo e cheio de vácuo que fazia eco quando alguém gritava.

Olhei tristonha praqueles olhos azuis tão cheios de si. Eles marejavam num ritmo inconstante, indo e vindo, como as ondas do mar de verdade. Fiquei pensando que aquele exercício que fazemos quando colocamos a concha nos ouvidos para escutar o mar era igualzinho a esse. Quando olhamos para os olhos profundamente azuis de alguém que já sofreu, também conseguimos enxergar o que existe de mais abismático no coração dessa pessoa. Geralmente, é o mar.

"Não", murmurei. "Ninguém me ensinou a nadar. Aprendi sozinha. Via de cima das montanhas como aqueles seres tão pequenos se movimentavam dentro d'água e só fiz imitá-los", continuei.

"Um coração do tamanho do seu é barca, minha filha", ele sorriu, o desenho da boca contornando os lábios grossos e machucados, fazendo saltar as bochechas roídas pela idade e criando uma expressão de um sábio - porém falido - instrutor de barcos. "Sabe, coração grande assim afunda quando perde a direção. É preciso saber nadar. Quando seu coração afunda, não existe bote salva-vidas capaz de chegar a tempo". Concordei num misto de melancolia e incerteza. Soltei o corpo novamente, com as pernas balançando perto das ondas. O cais já silenciava enquanto o sol se despedia. As pessoas atrás de nós se cumprimentavam, davam adeus, seguiam seus caminhos, parecendo tão certas do que fazer. Alguns passarinhos abusados disputavam qualquer pedaço de lanche deixado para trás numa lixeira próxima. Do cais, eu podia ao mesmo tempo sentir os respingos das ondas que batiam na madeira do deque e observar, lá longe, um navio alcançando a linha do horizonte, que já pincelava tons azuis marinhos, abraçava nuvens rosas e parecia se distanciar da claridade em busca de novos tons de preto.

"A noite se aproxima", ele continuou, percebendo que minha distância emocional podia ser medida entre o deque e o navio. Me olhou de soslaio, como olha uma pessoa adulta que acha que a criança seria capaz de se jogar no mar sem mais nem menos, como só uma criança peralta é capaz de fazer. Mas ele não se aproximou. O velho sabia que entre voltar para a segurança do porto e cair de peito aberto no mar, eu prefiro tentar nadar.

"Meu peito é barco furado", deixei escapar. Pensei nos quilos e quilos de madeira necessários para levantar um pequeno barco. Pensei nos furos causados pelo movimento das ondas. Pensei no desgaste causado pela instalação dos fungos. Pensei na tristeza de seguir o horizonte sozinha. Pensei no desespero de ver o barco afundando e não poder fazer absolutamente nada, sentindo o mar lambendo os pés ameaçador, ao mesmo tempo que parece te puxar e dizer: "o desespero é só um momento corriqueiro, uma fase rápida. Depois tudo que existe aqui embaixo é tranquilidade, azul eterno e silêncio".

O velho sorriu, pois adivinhava meus pensamentos. De novo aquele sorriso meio amedrontador, meio astuto. "Entre a dor de ficar e a dor de partir, qual barco você escolhe?", ele questionou, jogando longe a bituca de um cigarro forte de filtro vermelho.

Com a noite aparecendo, caia sobre nós também um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelo uivo calmo e contínuo das ondas indo e voltando. "A dor de ficar ou a dor de partir?", perguntei em voz alta, esperando que qualquer movimento pudesse se tornar um sinal, uma resposta.

"Há pessoas que esvaziam o coração e o barco...", ele foi finalizando, a voz baixa, começando a caminhar na direção oposta. "A solidão também é caminho, minha filha. Com um coração desse tamanho, ou você aprende a nadar, ou o abandona à deriva", disse. "Não se permita naufragar. Viva a viagem... segue tua busca. Entre a dor de ficar e a de partir, vai continuar existindo a dor".




Sabe que o mundo às vezes me assusta quando eu lembro que já existimos?

Ontem eu falei seu nome enquanto dormia. Acordei com um comichão esquisito no peito e a certeza de que, de novo e cada vez mais, você estava se despedindo.

E às vezes, veja só, eu tive a impressão de que seria boa com despedidas. Mas eu volto praquele dia no carro em que chorava soluços e meu pai me olhava em silêncio, com os olhos também marejados, mas marejados do silêncio que ele nunca foi capaz de quebrar, de dizer que ia ficar tudo bem, que amores como você a gente encontra por aí o tempo todo. Mas a gente não encontra.

Sabe que ainda me pulsa às vezes, me volta pra garganta o enjoo entalado do dia em que eu entrei no meu quarto e você nunca mais voltaria? Aquele dia marcou mais uma vez a certeza que eu sempre tive de que nós nunca seríamos. E quantas mentiras eu escrevi. E quantas mentiras você me disse. Em quantas mentiras acreditamos pra criar um grande amor que só poderia mesmo bambear, arder e terminar.

Você escreve pra tua cidade o que nunca conseguiu escrever pra mim.

Mas no fundo, amor, eu sempre soube que seria assim. Sempre soube que não caberia na tua aventura, na tua novidade, nos teus novos encontros. Eu não poderia caber nos teus remetentes, na tua letra cursiva, nas tuas memórias. Eu não tive tamanho suficiente pra caber nas tuas fotos.
Eu nunca me encaixei na tua vida.


[ fuso horário ]

São cinco horas da tarde aqui e cinco horas da tarde aí. Ontem fez um ano desde o dia em que você foi embora pra sempre. Mesmo que a gente já tivesse se despedido de nós mesmas há muito tempo antes disso.

Eu não desisti de você, sabia? Eu continuei escrevendo cartas imensas, publicando textos horríveis, procurando pessoas quentes e deixando o coração gelado. Quis começar um livro. Passei por uma depressão inteira que ainda me reservou cicatrizes invisíveis. Deixei pulsar e expulsei de mim demônio por demônio, sem saber que o Lúcifer mais poderoso é o que já mora em mim desde que existo por gente.

A culpa nunca foi do fuso horário. A culpa foi dos nossos silêncios e os temores que moravam dentro deles. A culpa foi da quantidade de quilômetros que separavam nossa conexão que parecia inabalável. A culpa foi do dia em que os brilhos nos olhos deram lugar à uma porção de lágrimas e um pouquinho de sangue. A culpa foi do pensamento que sorria pra mim e dizia que não dava mais pra ser feliz. A culpa foi das nossas mãos que se soltaram e não tiveram nem forças pra se buscar de novo. E a gente não se buscou mais, você sabe. A gente só deixou que o tempo levasse a culpa pela nossa incapacidade de seguir juntas.
Boto a culpa no fuso horário. Mas a verdade é que fomos nós que perdemos totalmente o tempo.




o peito aperta, bum. igualzinho o movimento que as mãos fazem quando apertam uma maçaneta, e depois a giram. igualzinho quando você tem um colega de trabalho muito nervoso e ele amassa furiosamente aquelas bolinhas de silicone pra tentar aliviar o estresse.

o peito aperta. as pessoas estão indo embora. (ok, eu sei, as pessoas estão sempre indo embora.) mas as pessoas que ainda não foram embora agem como se já tivessem ido. elas não estão mais aqui.

o peito aperta. eu olho ao redor e reconheço um ou dois rostos. um ou dois rostos. tem noção do que são um ou dois rostos? significa que todos aqueles dez já sumiram. já chegou até a ser quinze. hoje eles não cabem nos dedos das mãos. a gente não se vê mais. não se olha. nem se cumprimenta. paramos de existir.

[ qual é a dimensão do abismo que separa o que nós éramos do que nós somos agora? ]

deixei pra alguém uma lembrança de tudo que já amei há três anos atrás. soou como se eu falasse de um passado tão distante, mas tão distante, que nem parece que realmente aconteceu. uma miragem em preto e branco. às vezes a gente se surpreende com o tamanho das mudanças que compreendemos em nós mesmos, não? como se fôssemos pequenos lagartinhos se transmutando em algum fenômeno natural que vai simplesmente destroçar tudo o que já fomos.

pois é. meu peito aperta. não foram só as mudanças de cabelo a cada seis meses, os amores que eu tive e que deixei de ter, as pessoas que foram embora (e foram muitas), as dores que eu suportei e tive que abrigar no âmago pra poder continuar. não é só esse sentimento de estar presa no lamaçal sem conseguir dar dois passos. não é só essa incredulidade em acreditar em qualquer coisa.

é que meu peito aperta.
ninguém mais se importa com peitos que apertam.

deixar de cuidar, de se importar, e de estar
...é o fim do nosso tempo.


primeiro ato. 

eu preciso falar dessa segunda-feira em que chegou a gear lá fora de madrugada, atenção: chegou a gear lá fora essa madrugada! e mesmo assim saiu um sol tímido mas quentinho igual alma de criança. 
essa segunda-feira você me pegou pela mão e me puxou pela sala, 'vamos escolher um disco?', 'vamos'. e nós fomos. e isso resume muita coisa sobre nós. nós fomos. eu fui. você foi. e nós fomos indo. 
essa segunda-feira em que você, cheia do seu jeito todo incisivo mas cheio de delicadeza, simplesmente escolheu um disco, botou pra tocar e quando a vitrola arranhou os primeiros acordes de alceu valença, se virou pra mim com esse sorriso de dois quilômetros de extensão e segurou minhas mãos em volta do seu pescoço e ensaiou passos de dança tão certeiros como se você soubesse exatamente como me conduzir e depois se aproximou e eu pude sentir o cheiro que fica na sua nuca tão perto de mim e. e você sorriu. e não parou de sorrir um segundo. nesse sorriso em que seus olhos fecham como os olhos de uma menina travessa e uma mecha rebelde do seu cabelo contorna parte do seu rosto. e enquanto esses olhos me engoliam a gente dançava. e alceu sussurrava que uma moça bonita de olhar agateado deixou em pedaços o meu coração. deixou meus nervos de aço no chão. deixou meus nervos de aço no chão. deixou meus nervos de aço no chão. 

segundo ato. 

e eu preciso falar dessa noite gelada em que envolta do nós existia uma espécie de chama. um calorzinho. fosse talvez esse que sai do meu peito sem eu pedir toda vez que esses olhos param em mim. que nos passos desajeitados em que ensaiei grudada em seus quadris você gingou sobre as minhas pernas e dançamos sobre o piso frio branco, alheias aos que passavam. e você apertava seu rosto contra o meu e sorria tão profundamente que eu consegui acompanhar cada lenta estrofe como se ela tivesse sido escrita pra aquele minuto. e por não pensar em nada todos os meus sentidos te seguiam. faro, pele, gosto e som. 

terceiro ato.

bem, meu bem, me derreto, líquida, toda vez que esses olhos se alimentam de mim e essa boca me experimenta do jeito todo seu. sobro em pedaços esperando pelo toque das suas mãos fortes numa recomposição carinhosa. e aguardo mais uma dança. ou várias. em que a gente possa dançar por dias, encaixadas, em valsa, rodopio, unidas, em harmonia, em encontro e sem medida. dança comigo mais uma vez.

último ato.

obrigada por ressignificar o meu abismo.

Foto: Thamires Motta

Veja bem, meu bem. Eu sobrevivi, certo? Sobrevivi à sua partida, a sua indiferença e à distância que só dois continentes saberiam contar. 

Eu sobrevivi a uma depressão, a 10 quilos perdidos e nunca recuperados. Eu sobrevivi a três mudanças de casa, a amigos que se foram sem nem dizer adeus. Sobrevivi, sim. 

Sobrevivi a sanguessugas que tinham o poder maligno de destruir todas as minhas energias. Sobrevivi às horas que não passavam enquanto fitava inerte o teto do quarto. Sobrevivi ao quarto repleto de nós. Sobrevivi às estradas, surpreendentemente mais silenciosas e inanimadas do que jamais estiveram. 

Sobrevivi à falta de apetite, à apatia e o desânimo de sobreviver dia-após-dia. Sobrevivi a cada lembrança insuportável que parecia rondar os cômodos apagados do meu cérebro. Sobrevivi a todas as vezes que as luzes se acendiam e eu estava sozinha. Sobrevivi a todas as vezes que as luzes acendiam e eu estava acompanhada. 

Sobrevivi a todas as vezes que precisei abrir o peito para caber uma pessoa nova. Nem todas couberam. Mas sobrevivi. 

Veja bem, meu bem. Eu sobrevivi às canções que pareciam falar de nós sem usar nossos nomes. Eu sobrevivi a todas as vezes em que seu nome reaparecia. Eu sobrevivi a vontade de te tornar palpável falando sobre você. Sobrevivi também às tentativas de te tocar enquanto me tocava. Sobrevivi à recriação inútil do seu corpo nas minhas mais profundas memórias. 

Olha só. Olha bem pra mim. Continuo magra de dar dó, talvez um pouco mais descrente do mundo, com a pele horrível como sempre, continuo sem dinheiro pra nada e com mais preocupações do que posso carregar. Continuo sorrindo pouco e fazendo cara de séria a maior parte do tempo, continuo trabalhando como louca e deixando meu coração endurecer. Continuo mudando o cabelo, bebendo cervejas solitárias e escrevendo quando perco a vontade de respirar. Mas veja bem. Eu sobrevivi. Nem eu nem você achávamos que isso seria possível. Mas eu sobrevivi a você. Sobrevivi a sua presença. E sobrevivi a sua partida. 

Pude descobrir - depois de tudo - que é possível acordar um dia e sentir-se viva. Não, não falo mais de sobrevida. Mas de respirar, encher os pulmões e acreditar que é possível se amar e não deixar tudo doer. 

Colhi todas as migalhas que você deixou. E olha, pra nossa surpresa - isso também me ajudou a sobreviver. 

Foto: Thamires Motta

Hoje é primeiro de Junho. Todos os dias antes de dormir eu penso em você. Abro nossas fotos, numa espécie de tortura consentida. Como pra refrescar a memória só naquele segundo e permitir que você faça parte do meu dia só naquele instante. Você não pode mais alterar o rumo do meu dia. Ou será que pode?

Hoje é primeiro de Junho. Há um ano atrás essa data meio que marcava o início do fim. A convicção de que os segundos se arrastariam pro mais próximo da certeza de te perder. Dizem que cada segundo que passa é um segundo mais perto da morte; nosso tempo, então, morria lentamente seguindo os pêsames dos ponteiros dos relógios. Eu respirava fundo e me pedia, sem convicção, para não enlouquecer. 

Esse foi o meu maior medo, e como esperado, foi o resultado. Tentava guardar num vão de memória momentos fisgados de você, nós. Borrões. Seus suspiros, pintinhas, olhares profundos, boca aberta, dentes, sorrisos. A ponta do seu nariz. O cacho arredio do seu cabelo. O cheiro da pele quente, os pelos que correspondiam ao meu toque. As marquinhas, pequenas cicatrizes. O formato do seu umbigo, os dedos pequenos e delicados. os desenhos da sua pele. Tudo isso verbalizado ainda parece tão próximo, real e estranhamente palpável. Como se você nunca tivesse ido. Mas você foi. E eis que, um ano depois, você volta. 

Meu único anseio sobressalente desse tempo que me arruinou agora guarda uma ansiedade incômoda, uma dos na boca co estômago, um palpitar desesperado do peito. 

Será que ainda existe amor depois do tempo?

Foto: Thamires Motta

Eu nasci no segundo dia de inverno, meu amor. E talvez isso por si só já explique muita coisa, já que a minha primeira e mais desesperada busca foi o abraço quente de minha mãe logo após o nascimento. "E fazia um frio!", ela sempre conta.

É. Penso em nós, caranguejos de andada, filhos da lua cheia, nativos das constelações mais chorosas e emocionadas de todo o zodíaco. Nós nos acostumamos com o frio. O frio de algumas relações, o frio dos sentimentos nati-mortos, o frio do tempo e espaço que se foram e que a gente - por mania - busca preencher. Costume de se pegar remoendo, remexendo e revivendo lembranças do que não podemos mais nem tocar.

Nós, animaizinhos de casca grossa, temos a nossa própria e muito peculiar maneira de lidar com o mundo. A dor que vem, rebate numa couraça e volta, feito um feitiço. Pior é a dor que chega de mansinho, sem machucar no começo; que se aproxima como quem não quer nada e logo cativa, fica, e fica, e fica, e quando você vê já abraçou pra si. (É só depois que começa a doer.) Fica latejando, pungente, insistente, parece que nem sempre esteve ali. Mas estava. Porque pra nós, caranguejinhos solitários, faz parte andar lado a lado com ela.

De tanto costume, nos adaptamos às feridas teimosas que surgem no percalço. Sabe essas cicatrizes? Elas tem histórias. Essas marcas no casco? Também. Cada um dos vestígios fora da curva que surgem sobre esse corpo magro tem um significado, às vezes, profundo. Ironicamente, os aceito como belos - são bonitos signos nessa pele que provam que vivi intensamente. À flor dessa pele marcada. Entalhado no duro casco do caranguejo, que seja. Mas qual não é a minha surpresa ao enfrentar mais um inverno, na mesma carapaça, mas com novos e doces amores que inspiram a (re)enfrentar a vida.

Eu nasci no segundo dia de inverno. Mas hoje nem fez tanto frio. Toda vez que olho ao redor, descubro o porquê. 


Foto: Thamires Motta

Vem. Entra. Tira os sapatos. Ignora a bagunça. Desliga o celular. Abre a janela. Ria comigo. Repara nas paredes. Rabisca um pedaço. 
Escolhe aquela canção que eu gosto. Deixa tocar. Me segura por trás. Abraça apertado. Aperta teu nariz na minha nuca. Aconchega as mãos debaixo da minha blusa. Me sente. Gruda aqui. Deixa pra lá o tempo. Apaga os relógios. Agora fecha a janela. E a porta. 
Não espere nada de mim. Mas se deixe surpreender. Escuta. Pede minha língua. Tira a roupa. Peça por peça. Me peça. Geme no meu ouvido. Se arrepie. Deixe que o entorno se apague. Concentra aqui. Sente o calor. Me observe te olhando. Respira devagar. Escuta meu sopro. Experimenta meu sabor. Troca comigo. Revira os olhos. Deixa a boca entreaberta. Umidifica meus dedos. Entra. 
Deixa eu assoprar no seu ouvido umas palavras bonitas. Do tipo: entra. Em casa, pela porta aberta. Em mim, com as mãos molhadas. Em alguma lembrança gostosa daqui. Deixa sua marca, me impeça de esquecer. Vê se entra. 

Foto: Thamires Motta

Sabe... ela às vezes surge como um sentimento inanimado, bem na minha frente. Como uma nesga de fumaça que eu não consigo tocar, que se esvai pelos meus dedos quando eu encosto.
Ela faz meus olhos saírem das órbitas, quase como uma ansiedade, mas mais parecido com um desespero, mas não é ansiedade nem desespero, é alguma coisa entre esses dois. Faz meu peito querer sair do lugar, dar uma volta, se desapegar de tudo que já fui.
Ela vem como uma pontada seguida de soluços, vários soluços de um choro interminável que eu nunca chorei. Sabe, toda vez que eu choro é como se fosse a primeira vez, como se eu nunca tivesse me dado esse privilégio sádico antes.
É uma mistura de medo com estar sempre sozinha (e preferir assim). Quando foi que eu decidi que preferia assim? Na minha primeira ou na última decepção? Ou foi em cada uma das minhas pequenas mortes? Porque você sabe, eu já morri muitas vezes. E em cada uma delas eu tomava uma decisão. Como eu consegui radicalizar assim a minha vida a ponto de chegar no desespero de agora?
Eu estou totalmente exausta dela. Ela parada nos rabiscos, me olhando, como se esperasse que eu fizesse algo, qualquer coisa. Ela parada no futuro, sem saber se eu vou ser capaz de cruzar a linha de chegada. Ela olhando pro passado, provavelmente decepcionada, provavelmente pensando em todo o tempo que perdeu comigo. Eu estou exausta da minha ansiedade ter seu nome.

Sabe? No fim das contas, você estava certa. Ninguém merece se apaixonar por mim.

Foto: Thamires Motta

São bonitas as coisas que capturo com a lentidão digna de observador desses meus olhos de rodoviária. Conhece, olhos viajantes? Claro que conhece. Você tem um par grande, azulado e imenso de um desses. Seus olhos abrigam paisagens que nem nos meus mais profundos sonhos ousaria imaginar. Me faz pensar em universos paralelos, como o outro lado do guardarroupa de Nárnia que reservava aos aventureiros as aventuras que eles mal supunham. Rodoviárias são esses lugares atípicos borbulhantes de pessoas, como um caldeirão fervendo, misturas, cores, sotaques. Nos seus olhos azuis moram praias, desertas e lotadas de turistas; montanhas assustadoras e cumes que subimos ofegantes. Moram pedaços de asfalto, azulejos, pisos de porcelanato. Moram árvores imensas típicas de cada região, e cactos pequeninos que caberiam na palma da mão dos nossos futuros filhos. Nos seus olhos azuis moram piscinas naturais de águas calmas e térmicas, aquecidas, sem ondas. Moram flocos de neve teimosos, gotas de garoa fina, poças d'água que refletem prédios e monumentos. Moram pedaços do sol, do céu, e conchinhas.

Nos meus olhos moram bagagens, placas de saída, passaportes, tickets de ônibus, relógios imensos a quem os viajantes recorrem apressados. Nos meus olhos mora uma sujeira encrustada do pó de cada nômade que passou por aqui com seus sapatos.

Eu sempre gostei tanto do céu, e às vezes acho que esse é um dos motivos pelos quais me apaixonei por você. Os retalhos de céu no seu olhar, quando eu olho, me parecem muito com o infinito visto do mastro de um navio em movimento. Não que eu já tenha subido num mastro, mas pelo menos quando estive no mais alto cume do rio de janeiro foi nisso que pensei: seus olhos tem retalhos de céu vistos do lugar mais alto do rio de janeiro. Até o calor abafado e os pedaços de mata ao nosso redor me faziam pensar no seu olhar; porque ele tem também esse quê de algo que acolhe, cuida, protege e aquece. Seu olhar é um misto da adrenalina ao subir o cume e o sossego depois de chegar, me aninhar, e ficar simplesmente: observando. Eu poderia me jogar de lá de cima; a morte pareceu uma aventura que não doi, simplesmente acontece. Eu poderia cair de cabeça no mar que banhava aquela montanha e seria simplesmente igual a quando eu mergulhava dentro dos seus olhos; uma aventura intrigante, desejosa, ansiosa, selvagem. E assim, depois de tudo, não há mais o que temer. Eu só preciso olhar pra cima pra te reencontrar, nesses pedaços de céu que você me deixou como se tivesse dito: toda vez que sentir minha falta, meus olhos estarão sobre você.
Então me olha. Me olha pra sempre.